Saúde

“Ignorar a falta de leitos não a faz desaparecer”

Neste 18 de maio, Dia Internacional da Luta Antimanicomial, o psiquiatra Renato Silveira* reflete sobre o descompasso entre o fechamento de leitos hospitalares e a efetiva estruturação de uma rede substitutiva capaz de absorver, com qualidade e continuidade, a complexidade dos casos clínicos mais graves

A redução progressiva dos leitos psiquiátricos no Brasil, intensificada a partir da reforma psiquiátrica, foi sustentada por uma proposta legítima de superação do modelo asilar e de promoção do cuidado em liberdade. No entanto, ao longo das últimas décadas, consolidou-se um descompasso evidente entre o fechamento de leitos hospitalares e a efetiva estruturação de uma rede substitutiva capaz de absorver, com qualidade e continuidade, a complexidade dos casos clínicos mais graves.

A lógica territorial e comunitária, embora conceitualmente avançada, não se mostrou homogênea em sua implementação. Em muitas regiões do país, os serviços extra-hospitalares permanecem insuficientes, sobrecarregados ou incapazes de oferecer acompanhamento intensivo. Isso resulta em um cenário no qual pacientes com transtornos mentais graves e persistentes, especialmente aqueles com prejuízo de crítica, desorganização do pensamento ou risco de auto e heteroagressividade, acabam circulando entre atendimentos pontuais, internações breves e reinternações frequentes.

A diminuição dos leitos psiquiátricos não foi acompanhada por um aumento proporcional da capacidade assistencial em outros níveis de atenção. Na prática, observa-se a dificuldade crescente de acesso à internação em momentos de crise aguda, com permanência prolongada em prontos-socorros, manejo inadequado em enfermarias gerais ou mesmo ausência de suporte adequado no domicílio. Esse vazio assistencial impacta não apenas os pacientes, mas também suas famílias, que frequentemente assumem um papel para o qual não foram preparadas, arcando com sobrecarga emocional, financeira e social.

Não se trata de defender um retorno ao modelo manicomial, amplamente criticado por suas violações históricas, mas de reconhecer que a assistência em saúde mental exige uma rede equilibrada, que inclua, de forma complementar, dispositivos comunitários e leitos hospitalares adequadamente regulados. A ausência de qualquer desses componentes compromete o cuidado integral e expõe os indivíduos mais vulneráveis a trajetórias marcadas por descontinuidade, sofrimento evitável e, em muitos casos, agravamento clínico.

O debate sobre os leitos psiquiátricos precisa, portanto, ser reposicionado em termos técnicos e assistenciais, afastando-se de polarizações ideológicas que pouco contribuem para a solução do problema. É necessário discutir critérios de necessidade, qualidade da internação, tempo adequado de permanência e integração com a rede extra-hospitalar. O foco deve estar na garantia de acesso oportuno e no cuidado efetivo, e não na simples redução numérica de estruturas.

Ignorar a falta de leitos não a faz desaparecer. Pelo contrário, transfere o problema para as emergências, para as famílias e, em última instância, para a própria sociedade. Reconhecer essa lacuna é o primeiro passo para corrigi-la. O desafio agora não é escolher entre hospital ou comunidade, mas garantir que nenhum paciente fique sem assistência quando mais precisa.

Ao negligenciar a importância dos leitos como parte integrante do sistema de saúde mental, corre-se o risco de perpetuar uma forma silenciosa de exclusão, na qual o paciente não está mais institucionalizado, mas tampouco encontra suporte suficiente para viver com dignidade em liberdade. O desafio contemporâneo não é escolher entre hospital ou comunidade, mas assegurar que ambos existam de forma articulada, suficiente e funcional

* Renato Silveira é psiquiatra em Passos (MG)

CRM 39.315 / RQE 23.234

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